Bomba que vai levar água do mar para a Lagoa de Piratininga chega e começa a ser instalada – Prefeitura Municipal de Niterói

A chegada da bomba hidráulica de grande porte adquirida pela Prefeitura de Niterói marca o início de uma nova história: a recuperação definitiva da Lagoa de Piratininga. O equipamento será utilizado nas obras de reconstrução do Túnel do Tibau, intervenção considerada decisiva para restabelecer a circulação entre a lagoa e o mar. Com investimento de R$ 38 milhões e prazo estimado de 12 meses, a obra deve contribuir diretamente para a redução da mortandade de peixes e para a melhoria da qualidade ambiental da região.
As equipes já colocaram a mão na massa para instalar um emissário que levará água do mar para permitir a circulação hídrica, enquanto a comporta original será fechada para a realização da obra.
O prefeito Rodrigo Neves lembra que a gestão das lagoas é responsabilidade do Estado, que construiu o túnel em 2005. Após o desmoronamento parcial da estrutura, em 2019, o município aguardou anos para que o reparo seja realizado.
“Decidimos assumir essa responsabilidade porque a Lagoa de Piratininga não podia mais esperar. Mesmo com a obra contratada, aguardamos mais de um ano pela licença ambiental e conseguimos graças ao governador Ricardo Couto. Agora, finalmente, podemos iniciar uma intervenção fundamental para melhorar a circulação das águas, reduzir os impactos ambientais e fortalecer todo o trabalho de recuperação que já vem sendo realizado. É uma obra de engenharia muito específica e delicada, mas que vai ser definitiva para resolver a situação”, afirmou o prefeito.
Após o término do período de operação do sistema de bombeamento, todos os equipamentos e materiais que compõem o sistema serão desmobilizados imediatamente, mantendo as características originais dos locais utilizados. A remoção do conjunto de motobombas, assim como das bases pré-moldadas, será executada com o auxílio de escavadeira hidráulica. Os equipamentos serão transportados em carretas do tipo munck para a empresa locadora. Os demais materiais serão removidos manualmente pela equipe de obra do consórcio.
Ações paralelas – Antes mesmo da obra ser iniciada pela Prefeitura, os pescadores artesanais, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), além dos moradores, já vinham atuando, cada um em sua esfera, em um esforço conjunto para minimizar os impactos provocados pelo assoreamento e por outros problemas ambientais acumulados ao longo de décadas. As iniciativas contribuíram para ampliar o monitoramento, reduzir fontes de degradação e preservar a capacidade ambiental e produtiva da lagoa enquanto a intervenção estrutural era aguardada.
Ao mesmo tempo em que a ciência produzia conhecimento, a Prefeitura intensificava uma série de intervenções para reduzir as fontes de degradação do sistema lagunar para minimizar os impactos. Entre as ações, estão o programa Ligado na Rede, que já evitou o lançamento mensal de mais de 20,8 milhões de litros de esgoto na lagoa, desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade (SMARHS), que realiza gratuitamente ligações de esgoto para famílias de baixa renda localizadas na bacia da Lagoa de Piratininga. Até agora, 951 imóveis já foram beneficiados. As intervenções alcançam comunidades como Jacaré, Cafubá, Boa Esperança, Jardim Fazendinha, Bonsucesso e Caniçal.
O Bota Fora, realizado pela Companhia de Limpeza de Niterói (Clin), que retira resíduos descartados irregularmente às margens do sistema lagunar; a atuação permanente do Gecopav na remoção de materiais; a renaturalização do Rio Jacaré; e o Automonitoramento Assistido da Pesca, desenvolvido em conjunto por pesquisadores e pescadores.
Outra iniciativa voltada à proteção do sistema lagunar é o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis. Além dos jardins filtrantes, o parque possui quatro píeres de contemplação, seis píeres de pesca, 10,6 quilômetros de ciclovia integrada ao Sistema Cicloviário da Região Oceânica, 17 áreas de lazer, três mirantes e um Centro Ecocultural dedicado à educação ambiental.
Com uma área de aproximadamente 680 mil metros quadrados, incluindo as ilhas do Modesto, do Pontal e do Tibau, o parque foi planejado para contribuir para a proteção dos ecossistemas da Lagoa de Piratininga e de seu entorno. O objetivo é reduzir a chegada de sedimentos e nutrientes ao sistema lagunar, além de favorecer a melhoria gradual da qualidade ambiental das águas e oferecer espaços de lazer, recreação, contemplação, cultura e educação ambiental.
Projeto de monitoramento da Lagoa – Levantamentos do projeto de Automonitoramento Assistido da Pesca mostram que, apesar dos desafios ambientais, a Lagoa de Piratininga continua produzindo pescado. Somente no primeiro quadrimestre monitorado de 2025, foram registradas cerca de sete toneladas de peixes, confirmando que o sistema lagunar mantém sua capacidade produtiva e responde positivamente às ações de recuperação ambiental.
Durante muito tempo, a mortandade de peixes e o assoreamento fizeram muitos acreditarem que a lagoa estava condenada. Enquanto a obra era aguardada, porém, pescadores, pesquisadores da UFF e da UFRRJ e a Prefeitura mantiveram um trabalho contínuo de monitoramento e recuperação ambiental.
“Estamos em diálogo permanente com os pescadores e pesquisadores e manteremos a população informada sobre todas as etapas da obra. Toda a área será sinalizada para garantir a segurança dos moradores, pescadores, trabalhadores e banhistas. Foi um longo caminho até aqui, mas vamos conseguir”, explicou o sub-secretário de Mobilidade e Infraestrutura, Vicente Temperini.
Mais do que números, o projeto construiu uma nova forma de produzir conhecimento. Desde 2019, pescadores registram diariamente informações sobre as espécies capturadas, a quantidade de pescado, as áreas de pesca e os períodos de maior produtividade. Os dados são analisados pelos pesquisadores e depois devolvidos à comunidade em reuniões periódicas, fortalecendo uma relação de confiança entre a ciência e o conhecimento tradicional.
Apresentado no 20º Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar (Colacmar) e no 8º Congresso Brasileiro de Oceanografia, o trabalho tornou-se referência nacional em gestão participativa de ecossistemas costeiros. Coordenado pelos pesquisadores Maurício Duprê de Abreu, Magda Andrade-Tubino, Júlia Benevenuti Soares e Marcus Rodrigues da Costa, o estudo enfrentou um problema histórico: a escassez de informações sobre as lagoas de Niterói. O automonitoramento passou a preencher essa lacuna, mostrando que a recuperação ambiental pode ser construída com a participação direta de quem conhece a lagoa todos os dias.
A soma de ações faz com que especialistas afirmem que a recuperação da Lagoa de Piratininga não depende apenas da obra do túnel. Para o presidente da Associação dos Pescadores Artesanais da Lagoa de Piratininga (APALAP), Luiz Mendonça, a obra representa muito mais do que uma intervenção de engenharia.
“Quem vive da lagoa esperou por esse momento durante muitos anos. Enquanto muita gente dizia que ela estava perdida, nós continuamos pescando, participando das pesquisas e acreditando na recuperação. A Prefeitura assumir essa obra representa esperança para os pescadores e para todas as famílias que dependem da lagoa. Com a renovação das águas, esperamos diminuir as mortandades de peixes, fortalecer a pesca e garantir mais dignidade para quem tira o seu sustento desse ecossistema.
Acreditamos que essa obra vai trazer vida de volta para a lagoa, melhorar a pesca e garantir dignidade para quem depende dela”, afirmou Luiz Mendonça.
O trabalho de monitoramento realizado pelas universidades ajuda a compreender as mudanças no sistema lagunar e a relação entre a qualidade da água, a mortandade de peixes e a produção pesqueira.
Coordenador do Laboratório Ecopesca-UFF ao lado do professor Marcus Rodrigues da Costa, o professor Cassiano Monteiro Neto atua no Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da Universidade Federal Fluminense.
Cassiano, Marcus e o professor Rafael de Almeida Tubino, do Laboratório BioPesca da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, desenvolvem estudos sobre os ecossistemas lagunares e orientam alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. O sistema lagunar Piratininga-Itaipu é estudado pelas equipes desde antes da abertura do Canal do Tibau, reunindo informações de diferentes períodos e permitindo acompanhar as respostas ambientais da lagoa.
De acordo com Cassiano Monteiro Neto, ainda não é possível estabelecer um percentual de aumento da produção pesqueira após a obra. A expectativa é de que a melhoria da circulação e da oxigenação das águas contribua para reduzir os episódios de mortandade e traga maior estabilidade para a pesca.
“Os eventos de mortandade de peixes representam, em média, uma perda de aproximadamente três a quatro meses na produção pesqueira local, porque os peixes mais jovens, chamados de recrutas, estão entre os mais afetados. Com o aumento da circulação e da oxigenação das águas, esperamos que esses episódios sejam reduzidos, trazendo mais qualidade ambiental, estabilidade para a pesca e a possibilidade de recuperação da produção. A Prefeitura assumir essa obra é um passo importante dentro de todo o processo de recuperação do sistema lagunar”, explicou o professor Cassiano Monteiro Neto.
O pesquisador acrescentou que o monitoramento continuará durante as próximas etapas e que novas análises estão sendo realizadas a partir de informações reunidas ao longo de várias décadas.
“Não há como prever, neste momento, em termos percentuais, se haverá aumento na produção de pescado. O que podemos afirmar é que uma melhoria na qualidade das águas, com maior circulação e oxigenação, pode contribuir para reduzir os eventos de mortalidade e, consequentemente, estabilizar ou até ampliar a produção pesqueira da lagoa. Nosso monitoramento continua, assim como as pesquisas que vêm sendo realizadas há muitos anos no sistema Piratininga-Itaipu”, concluiu Cassiano.
Memória – Em 2005, o Governo do Estado construiu o Túnel do Tibau para ligar a Lagoa de Piratininga ao mar e melhorar a renovação das águas. Com o passar dos anos, a estrutura sofreu desgaste até registrar um desmoronamento parcial em 2019, comprometendo o fluxo de água e agravando problemas ambientais. Vieram episódios de mortandade de peixes, aumento do assoreamento e sucessivos pedidos da comunidade por uma solução definitiva. A Prefeitura de Niterói decidiu assumir a realização da obra.
Foto: Claudio Fernandes

